Venho falando sobre a cultura livre em bibliotecas. Parto do conceito da apropriação social de tecnologias em bibliotecas com base em ferramentas de código aberto e práticas colaborativas. Esta apropriação é uma crítica ao discurso operacional de uso de tecnologias apenas para automação de rotinas administrativas e processamento técnico em bibliotecas. Este discurso geralmente é sedimentado em pressupostos gerenciais, técnicos, materiais, pouco se fala como a tecnologias pode ser utilizada para promover a leitura, o estímulo a produção intelectual e uso criativo no âmbito das bibliotecas.
Apesar da moda em torno do conceito de cultura livre e colaborativa, se formos pensar a colaboração é uma noção não muito distante no campo da biblioteconomia. O intercâmbio de acervos bibliográficos, catálogos cooperativos, comutação bibliográfica, padrões de interoperabilidade, iniciativa de arquivos abertos e implementação de repositórios digitais, são exemplos de recursos que tem como eixo central o compartilhamento da informação. Diversas instituições colaboram para formação de uma rede de troca de informações através de consórcios ou sistemas bibliográficos integrados. Ferramentas baseadas na filosofia do software livre vem sendo amplamente utilizadas em bibliotecas, quer seja um sistema de gerenciamento de bibliotecas, ferramentas para repositórios digitais ou um sistema de gerenciamento de conteúdo, dentre outros. Se tomarmos como evidência o papel da biblioteca pública, veremos que esta sempre esteve associada a socialização do saber registrado, assim como também ações que estimulem a produção deste saber. Então tomemos estes pontos como parâmetro e podemos afirmar que a biblioteconomia já trabalha com práticas colaborativas e manifestações livres para disseminação de documentos e democratização do conhecimento. Esta afirmação é tendenciosa e delicada, já que a biblioteconomia tem uma forte tradição técnica, pouca discussão social e muita prática proprietária (FRBR, RDA e padrões, Políticas públicas de informatização em bibliotecas).
Acontece que falamos muito em tecnologia e esquecemos o uso criativo e crítico destas no contexto social. Como o Moreno Barros tem falado em algumas palestras, muita gente tem celular, pen drive, mp3 player, msn, orkut, alguns possuem câmeras e filmadoras digitais, etc. e que as bibliotecas brasileiras ainda continuam ignorando estas ferramentas. Eu acrescento mais ainda, existem bibliotecas que possuem computadores com webcam, scanners, internet (algumas já estão com rede sem fio), etc. Muito poucas bibliotecas utilizam estes aparatos tecnológicos como uma forma de aproximar o usuário e dinamizar suas atividades. Então como poderíamos propor uma “solução social” para este impasse? Podemos dizer que atividades de dinamização podem ser implementadas usando recursos tecnológicos visando criar um ambiente mais interativo, participativo e inteligente, embora existam diversos condicionantes culturais e políticos que podem restringir tais práticas. As atividades são baseadas nos seguintes pressupostos:
Streaming media: pode ser utilizado em bibliotecas que possuem conectividade com a Internet e possuem uma simples webcam e microfone. Uma conversa literária com autores e especialistas através de uma conferência virtual nas dependências de uma biblioteca é uma coisa muito simples e de grande valor. Uma biblioteca pode ter sua própria webrádio e/ou webTV e assim divulgar os serviços, produtos, eventos e conteúdo jornalístico através de uma programação livre e comunitária.
Acervos livres: formação e desenvolvimento de coleções com base na cultura livre. Obras que possuem licenças flexíveis ou que estão em domínio público, fanzines, produções multimídias criadas pela própria comunidade registradas em CD, DVD ou mesmo on-line. Política de seleção e aquisição de forma colaborativa. Compartilhamento de políticas entre bibliotecas, comunidades de leitores e pesquisadores podem utilizar wiki para criar diretrizes para o desenvolvimento de coleções. Isto aproxima o usuário das políticas das bibliotecas e quebra com o autoritarismo bibliotecário.
Metareciclagem: fim social para o lixo tecnológico. Pode ser utilizada para implantação de computadores para nas bibliotecas, móveis reciclados e criação de objetos decorativos com base na artesania digital. Na MetaRec, a criatividade é que regula a utilidade dos equipamentos, é uma das práticas mais interessantes que vem sendo desenvolvidas em projetos culturais.
Produção multimídia: Vídeo, áudio, fotografia para estimular a leitura, fazer releituras de obras literárias através de imagens, vídeos, músicas. Criar obras derivadas e produção compartilhada usando ferramentas multimídias livres.
Publicação de conteúdo: Uso de ferramentas colaborativas para gerenciamento de conteúdo: blogs, wikis, portais, banco de imagens. Usados para estimular a leitura, escrita, conversação e o ativismo em rede.
Softwares livres para automação: Sistemas de Gerenciamento de Bibliotecas sob a filosofia livre. Ferramentas para criação de bibliotecas digitais e repositórios institucionais. Promover a autonomia tecnológica, segurança, estabilidade, economia e customização de aplicações e incentivo a padrões abertos.
Economia solidária e auto-gestão: A economia solidária pode ser aplicada como uma solução para sustentabilidade de bibliotecas comunitárias, por exemplo. Uma proposta de gestão de recursos fundamentada na valorização do ser humano e não do capital, centrada cooperação, colaboração, associativismo, autonomia e experimentação.
Acessibilidade na bibliotecas. Escaneamento de capítulo ou obras completadas usando OCR, que permite o reconhecimento de caracteres e depois a conversão para um arquivo em formato digital e assim uma pessoa cega pode usar um leitor de tela para ler o texto. Essa prática é ilegal, já que infringe as leis de direitos autorais, portanto não podemos compartilhar em rede para que outras pessoas possam utilizar aquela informação. O curioso é que conheço pessoas que vem fazendo isso e estas gostariam com certeza de compartilhar com outras bibliotecas e usuários, mas….
Estes são alguns dos pressupostos que até agora observo como relevantes, tudo ainda está em fase embrionária. Estamos formando um núcleo de estudos na UFMA que tem como objetivo primordial discutir as tecnologias livres e a cultura colaborativa. Pretendemos unir conceitos libertários de aprendizado à produção e circulação de bens imateriais e padrões tecnológicos. Desta forma, os pressupostos citados servem como sustentação das práticas em um projeto de criação de um ponto de cultura em uma comunidade em São Luís. Como bibliotecário vejo que a biblioteca é um aparelho cultural que negligencia esses pressupostos, portanto estamos pesquisando conceitos, definindo metodologias, tentando entender a cultura conservadora, mercadológica e elitista enraizada nas bibliotecas e na biblioteconomia brasileira.