Observando a área sobre a avaliação de softwares, fico pensando como é problemático introduzir alguma aplicação no contexto das bibliotecas. Quando uma equipe de bibliotecários necessita implantar um sistema de gerenciamento de bibliotecas, uma biblioteca digital, um blog, um sistema pra esquema de conceitos, um sistema de GED, uma ferramenta para groupware, ou qualquer outra aplicação, geralmente enfrenta inúmeras dificuldades. Estas dificuldades começam pelo ponto de vista teórico, pois temos poucas discussões conceituais referentes a este domínio do conhecimento.
Venho defendendo 3 abordagens para a área de TI aplicada à biblioteconomia, que em breve publicarei um texto a respeito. Eis as abordagens:
- Automação de Bibliotecas: Introdução de sistemas integrados para automação das rotinas de catalogação e circulação, além da criação, gerenciamento e acesso a documentos em formatos digitais em bibliotecas/repositórios digitais;
- Informática Documentária: Conjunto de aplicações da informática à documentação, técnicas referentes às intervenções da informática nas diversas fases de produção e utilização de documentos. Envolve gerenciamento eletrônico de documentos, sistemas de organização do conhecimento, gerenciamento de bibliografias, etc.
- Gerenciamento de Conteúdo: Aplicações baseadas na Web relevantes para gestão colaborativa de conteúdos como artigos, notícias, recursos multimídias, etc. Uso de ferramentas como Blogs, Wikis, CMS e Groupware.
Esta proposta é apenas uma pequena classificação, funciona como modelo para podermos compreender quais são os requisitos, padrões e tecnologias para serem considerados no processo de inserção de TI na Biblioteconomia. Estas abordagens vem sendo aplicadas no estabelecimento de um conteúdo programático para o ensino na graduação e em treinamentos.
Aqui, no projeto, estamos escrevendo um texto sobre o trabalho que vimos desenvolvendo, referente a critérios para avaliação de recursos multimídias, tomando como base requisitos técnico e pedagógicos. Após ler alguns artigos verifiquei que existem muitos estudos sobre o tema, mas não algo exato sobre avaliação de mídias para catalogação em um repositório educacional. Pude perceber que a Educação, possui taxonomias para softwares educacionais, diversas definições sobre os tipos de aplicativos para fins educacionais, em suma, é uma temática bastante discutida. Se formos transpor essa idéia para a Biblioteconomia e formos efetuar uma pequena busca, logo percebemos que não encontraremos facilmente algo sobre a temática, exceto alguns artigos clássicos de relatos de experiências em atividades de avaliação e seleção de sotwares para automação. Muitos estudos vem sendo feito sobre avaliação de softwares para automação, como sistemas de gerenciamento de bibliotecas, mas poucos enfatizam a diversidade dos softwares que podem ser úteis no dia-a-dia bibliotecário. Isto vai desde uma simples conta de um bookmarks para referências, a um complexo sistema de gestão de imagens digitalizadas, passando por um servidor Web que irá hospedar a biblioteca digital ou o periódico eletrônico da instituição.
Além da necessidade de concepções teóricas e técnicas para avaliação de softwares na biblioteconomia, visualizo algumas temáticas de grande evidência e que muitas vezes são negligenciadas e são campos emergentes e de caráter multidisciplinar. Tais lacunas são:
- Padrão de Projetos (Design Pattern) em softwares para bibliotecas (Engenharia de Software, Informática Documentária, Automação e Administração de Bibliotecas);
- Modelos de interface centrada no usuário (IHC, arquitetura da informação e Estudo de Usuários);
- Propostas de benchmarking para softwares para bibliotecas (Administração de TI, Automação de Bibliotecas, Métodos Quantitativos em Biblioteconomia);
- Técnicas de conversão de registros bibliográficos para padrões atuais e abertos(Representação Descritiva, Recuperação da Informação e Ciência da Computação);
- Segurança da Informação em Bibliotecas (Computação, Automação e Controle, Administração de Bibliotecas);
- Representação de Conteúdos Multimídias (Artes, Inteligência Artificial, Representação Descritiva e Temática);
Ao invés da Biblioteconomia e Ciência da Informação tupiniquim ficar apenas se preocupando tecnologias da moda como ontologias e metadados, que muitas vezes se resumem a exercícios com o Protégé e citações de Berners-Lee, não que não existam estudos interessantes, admiro muitas produções de programas de pós em CI, mas creio que deveriam existir mais abordagens, pressupostos, metodologias, estudos de caso, modelos de referência, tutorais, modelos de requisitos e outros artefatos para poder se aproximar a TI da Biblioteconomia com um enfoque mais científico, não apenas pragmático, com sentido resumido de operacionalização, pois utilizar ferramentas é muito mais que modernização de bibliotecas em tarefas rotineiras de processamento técnico mediado por computador, atinge a esfera sócio-cultural, já que, exige um custo material, um esforço mental, um tempo, muitas implicações jurídicas, dentre outras variáveis.

Há muito, a menos pelo contato tácito que tive acerca do assunto em pauta, não existe integração metodológica do ponto de vista multidisciplinar para estabelecimento de linhas coerentes de pesquisa em análise de requisitos, estudos de usuários, IHC, design patters aplicados a softwares para a área porque a biblioteconomia, ao que me parece no contexto nacional, ainda não acordou para os benefícios teóricos e práticos de uma abordagem sistêmica e estratégica da integração dos saberes. Esse paradigma, que parece mais um estereótipo, é interessante, porque sempre que se discute em público padrões de projetos, interface com o usuário e arquitetura da informação, somos tachados pelos cantos de “tecnicistas”. Mas as oportunidades por fora são grandes.